ARQUITETURA DA LUZ: A VOZ HUMANA DE FRANCINE CANTO | | voltar |
Texto de Fernando José Karl
"Antes de falar sobre a delicadeza infinita de Francine, vou me ater um pouco à concepção do livro: é uma caixa e traz em seu bojo 24 poemas da autora ilustrados pela invencível artista plástica Tina Lautert. E por que 24 poemas? O motivo é simples: cada texto representa uma hora do dia.
Os poemas de Francine Canto, se posso dar um exemplo, são jóias mais delicadas que a chuva, onde cada linha é o aviso do rigor e da comunicação humana. Em cada um dos 24 poemas dessa escritora incrível, há riscos desmedidos, líquidos insondáveis. E também há novidades antiquíssimas, querem uma prova? Leiam o poema a seguir:
OS BICHOS
Reverencio as quatro cobras
que dançam em meu peito.
Reverencio o gato verde
que se esgueira através de meu sangue.
Reverencio todos os bichos
que me habitam.
Ofereço-lhes a alimentação mais rara,
a mais pura.
Que tomem o meu corpo,
para que a alma não estanque.

Além da bela capa de Tina Lautert e dos grãos de cristal escritos por Francine, a obra "Arquitetura da Luz" traz uma outra novidade que não posso esquecer de salientar: os 24 poemas ilustrados são, também, cartões-postais e só aguardam que o leitor coloque um selo no lugar indicado e os envie para quem quiser.
Mas voltemos um pouco mais à escritura da poeta são bentense:
MÚSICA
Quando na penumbra
se faz a solidão
crescem raízes dentro do peito
e o silêncio ganha espaço.
O poeta,
sem ter pra onde fugir,
explode,
seu grito vira um canto.

Pureza de mulher em cada linha do livro "Arquitetura da Luz". Ao ler as palavras de Francine Canto e ao ver as paisagens gráficas de Tina Lautert, acordamos imersos numa luz que é desse mundo, sem esquecer que essa luz também é do outro mundo, esse que criamos com nossos olhos de leitor ávidos de paraíso e aroma de nuvem.
As delícias do dia estão todas aqui, nessa pequena caixa de poemas e ilustrações, lapidados na Ilha Mágica de Santa Catarina ou Floripa. Segundo a própria Francine, em "Arquitetura da Luz",
Cada hora tem a sua aurora.
Cada momento é chamariz ao renascimento.
E para que não digam que Fracine esqueceu da pipoca e da abobrinha, leiam abaixo mais uma ode dessa poeta que traz a chama na alma e na língua uma voz simplesmente humana:
A EXISTÊNCIA
Sou pipoca,
abobrinha, açaí, camomila.
Sou meus olhos, meus ouvidos,
sou os peixes da lagoa,
o céu,
o carnaval que vi no sonho,
sou a música de Bach
e a de Caetano.
Sou estar aqui e não lá.
Título: Arquitetura da Luz. O quê: Coleção de 24 postais dentro de uma caixa-capa. Gênero: Poesia / Ilustração. Edição: Independente, 1000 exemplares. Preço: R$25,00. Poemas: Francine Canto. Ilustrações: Tina Lautert. | 
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